sábado, 2 de janeiro de 2016

CORPO E COSMO

CORPO E COSMO
Respiro no meu universo
Singular, surgi em energia
Concentrada, densa e quente
Prolifero-me de forma acelerada
(Não ignoro meus segundos)
O cosmo ameaça se dissipar
Não chora a morte como eu
Concentro-me no meu escuro ainda pequeno
Desdobro-me em muitas outras
(Acredito nas múltiplas de mim)
Materializada, vivo um tempo determinado
Não pertenço a nenhuma galáxia
Sou capaz de desdobramentos
Vivo meus “eus” por inteiro
(Projetando-me viverei minha transmutação)
Hilda Helena Dias

EXTENSA



EXTENSA
Minha realidade estrutura-se num
Obscuro que não posso evitar
Tensa, coloco em desordem meu cosmo 
Encho-o de emoções e desejos
(Ativo minha alma)
Livro-me dos rastros morais
Sou quebra-cabeça que perde peças
Reencontro-me naquilo disperso
Faleço momentos ao evoluir no tempo
(Minha consciência será suprimida para sempre)
Vida é nicho deixado pela extinção
A morte legítima e legalizada
Estabelece-se na minha existência
Ocupa meu espaço e necessidades
(Longe de mim chegarei ao final)
Não sou eterna devido à minha extensão.
Hilda Helena Dias

SIGNIFICÂNCIA

SIGNIFICÂNCIA
Paro de vez em quando
Fico em silêncio diante do Universo
Não peço para pensar
Não imploro nem agradeço nada
Apenas vivo o calado momento
Na dimensão do cosmo
(Ajoelho-me, mais a alma que o corpo)
Maravilhosa e aterrorizada realidade
Sobre o planeta deito e rolo
Corro para me alcançar
Evoluo gradualmente
Possuo um universo anárquico em mim
Consciente, manipulo a memória
(Permito-me sair do mundo externo)
Inábil, não me controlo viva
Minha carcaça inerte em conflito
Acha-se ligada ao que respira
Não me mato por causa disto
Suponho ter meu valor
Humildemente, vou longe
( Sou um ponto diante da Terra)
Hilda Helena Dias

POTÊNCIA

Potência
Ativo o prazer com intenções
Com significantes digitais
Enuncio meu idioleto pessoal 
(Supero-me ao tentar definir-me)
Não limito meu inconsciente
Com ele aprendo a ser exuberante
Torno-me possível ao exaltá-lo
(Recolho-o em mim mesma)
Evoco-me em rede
Balizo minhas realidades e transformações
Encontro-me potência ao evoluir antes da morte
(Sou finitude em função do desconhecido)



PROJEÇÃO



PROJEÇÃO
Sem defesas, olho para mim
Fraqueza deixa de ser sombra
Arrisco-me a ser rejeitada
Por não me culpar por ser fraca
(Nego-me a me idealizar nos outros)
A fragilidade não me sufoca
Não camuflo sentimentos ocultos
Entro em contato com eles
Sob a superfície aparecem
(Exalto a razão ao ser pó no universo desconhecido)
Não reajo insensatamente ao lidar
Com traumas desorientados
Projeto-me no mundo dos meus significados
Como se pudesse reordenar motivos
(Me aceito ao não anular-me)
Eu, projeto inacabado
Tenho uma cidade aos meus pés.
Hilda Helena Dias

ESTRANHAMENTO

ESTRANHAMENTO
Estranhas de mim aprisionam-me
Trancafiam meu querer
Ao saírem por aí com
Roupas que não me cabem
(Elas têm vontades herdadas)
Esbarrando-me com essas que sou
Desconheço roupagens internas
Distancio-me de tudo que conheço
Elevo-me diante delas
(Circunstancial, me aceito complexa)
Hilda Helena Dias

INTERVENÇÃO



INTERVENÇÃO
Queria viver os miríades instantes
De maneira que se orgulhasse deles
Ao ponto de querer eternizá-los
(Seria lenda para toda vida)
Tentava regular a realidade
A consequência no corpo era o
Diagnóstico que precisava da memória
(Vontade própria era assunto interno que
Pairava em areias em movimento)
Dentro dele uma vida intensa e
Estranhamente original
Mediava situações adversas
(Misteriosa, provocava-o)
Ao ser diferente, reabilitava-se
Desenvolvia habilidades que lhe
Eram peculiares
(Manifestava-se metamorfoseando-se)
Ser outro, a cada dia, o confirmava.

NUNCA NEGAR-SE


NUNCA NEGAR-SE
Amava-se incondicionalmente
Na origem era mais que humano
Em órbita na Terra
Existia em potencial
(O ego merecia defesa)
Se o real, coberto de feridas,
Não confirmava o existir,
Ele, alegre e exuberante,
Construía uma existência superior
(Evoluía em vez de cristalizar)
Afirmava-se conscientemente
Buscava um mundo que não o
Reduzisse a menos que pleno
Existir fortalecia a ficção – ou não
(Negar-se seria entregar-se vivo)

A ESTRANHA QUE AMAMOS

"De Monica Martins este presente para mim"
A ESTRANHA QUE AMAMOS
Nasceu como a luz
Fadada a brilhar
Mesmo nas trevas
Ser celeste dotado
De humanidade
Olhos microscopistas
Alada, transpõe muralhas
Pairando sobre o novo
Expandindo a Terra
Mística, mesmo em grades
Liberta a outros
E a outros mais
Quando livre,
Asas sempre abertas
Prontas para partir
A biruta que lhe guia
Coração direcionado
Lhe é peculiar.

ERMITÃO



ERMITÃO
No solo psíquico seu eu
Encontrava-se só
Negava tudo que por ele
Não tinha vivido
(Amava-se extremamente)
O mundo nem existiria se
Não tivesse experimentado
Sustentava-se a observar o
Universo que conhecia tão pouco
(Valorizava-o, dele fazia parte)
Conhecia bem menos que queria
Radical, experimentava o real
Via o outro que como ele
Parecia parte de tudo que existia
(Travou-se uma batalha íntima)
Maluco e emotivo
Continuava a existir
Com os pensamentos firmados na areia
Independente, experimentava a existência
(Doutrinava-se para projetar a mente)
Hilda Helena Dias
Imagem: Caspar Friedrich -O Caminhante Sobre o Mar de Névoa-1818

AUTONOMIA

AUTONOMIA
Heterônomo, desviava-se do normal
Libertava o conformismo
(Não rejeitava mudanças)
Causas mágicas e míticas
Não eram destino
(Constituiu leis para si)
Sem arbítrio, manifestava
Vontades livres
(Admirava-se por não ser opressor)
Pintura de Joel Rea

A FINITUDE DO INFINITO

A FINITUDE DO INFINITO
Meu corpo antes celeste
Firmou nas entranhas da terra
Tornei finito o infinito 
Ao ser ainda em águas placentárias
Projeto de um fim
Colaram-me a pele do mundo
Tatuada com idealismos dogmáticos
Eu transcendental em
Decadência ousava
Experimentar minha autonomia.
Hilda Helena Dias

PRENDA AO TEMPO



PRENDA AO TEMPO
Fruto do passado exposto ao sol, ao
Silenciar o despertador
Distancio da vida no início do dia
O mundo metódico mede momentos
Antes do agora, ao investigar-me
Vi comportamentos deixados para a história
Ser cósmico e transcendente
Sem-fim definido era essência exalada
O meu agora ao tempo ofereço
Atrevida, vivo a vida.
Hilda Helena Dias
"Relógio - Aquarela Floral" - Ivone Harry
Pintora norte-americana contemporânea

SUBSERVIÊNCIA

SUBSERVIÊNCIA
Não posso ser escrava do mundo
Que não arrepia a pele
Da vida eu já sou
Ela me segue com
Existência breve
No movimento de existir
Transporto a morte
Cabe a mim, eu um
Espectro humano escravizado
Emocionar-me por estar viva.

FILIGRANA

FILIGRANA
Preenchido meu espaço de pensamentos
Com olhos para dentro me via
Pedra bruta
Propensa a detalhes
Apenas via a memória
Sem espelhos
Um encontro incômodo
Quase me decifrava
Exposta para mim, sem
Alegorias censuradas a
Arder em explosão
Encontrava-me demais
Original, ornamento
Delicadamente a vida
(Viver para sobreviver é pouco)
Hilda Helena Dias

MULTIPLICIDADE

MULTIPLICIDADE
Sou personagem da
Exuberante vida
Minha memória alternada a
Cada dia
Revela-me.
Mudo de papel
De cenário, de
Rumo ou posição
Ao viver meu contraditório
Sou eu no plural
Ser antagônico, com a voz de
Inúmeras contradições e
Olhares paradoxos
Descubro a igual medida de
Meus limites
Sou múltipla ao
Expandir-me.
Hilda Helena Dias
Imagem da Artista Plástica Joana Ricou

MISTÉRIO COMPREENSÍVEL

MISTÉRIO COMPREENSÍVEL
Meu olhar lendário
Em campo aberto
Deixa-me oculta
Ao revelar-me
O horizonte de mim
Mostra-se com reservas
Intrigante enigma
Prevenida escondo limites
De sobreaviso sou exótica
Apego-me aos desafios
Não vejo, nem revelo
Segredos são aprendidos.
Hilda Helena Dias

PEQUENO SOL

PEQUENO SOL
Sozinha no
Tempo e no espaço
Presa na ausência de caminhos
Encontro-me e
Perco-me
(Não tenho os trinta e
dois sentidos
da rosa- dos- ventos)
Aonde nascem as plantas
Eu vivo
Sem bússola, no próprio
Território
Oriento-me a
Alcançar o acaso
(Fatal é o fim)
Menor que o sol,
Com temperatura, cor
Bem antes, sou estrela.
Hilda Helena Dias

PERMITIDO

PERMITIDO
Eu, na legitimidade de existir
Não caibo no permitido
Legal, estabeleço regras, a
Justificar existência,
Dominação que me caiba
Ando bamba, de acordo
Com as normas
Sem domínio,
Legalizo
Poder
No divã dos mutantes, a
Confessar quem sou
Choro, garanto minha integridade.

RENASCIMENTO

RENASCIMENTO
Desafio o limite da razão
Da imensidão, que nada
Tem para revelar
Inauguro minha eternidade
Sem medo, meu mundo
Ganha quase vida própria
Num universo desencadeado
Eu, tão perto e longe de mim
Empenho-me
Vivo crises
Mudanças
Autonomia da metamorfose
(Essa liberdade)
Minha alma sem memória
Desconhece a terra natal
Verdades eternas a carregar, a
Despertar o espírito renascentista.
Hilda Helena Dias

ARQUÉTIPOS

ARQUÉTIPOS
Eu, a heroína
Na clareza de estar
Avistava bem distante
A possibilidade de me ver
Estruturas invisíveis do ser
Reprimidas, organizavam bailes
Para mim, máscaras disponibilizadas
Presente para as personas em sombras
Neguei-me usá-las
Sou peculiar.
Hilda Helena Dias

HETERODOXIA



HETERODOXIA
Analisava-se dentro da agitação
Temperado pelo
Passado em etapas
(Respingando o presente)
Expelia-se personificado
A julgar pela experiência –
O novo em bruma aparecia
Ele, ser que se julgava integral
A relacionar consigo (tantas coisas)
Definia-se utopista sem esperança
Afirmou-se automaticamente
Ser ele o oposto do ortodoxo
Com bom senso finalmente,
Ensinava a si mesmo.
Hilda Helena Dias

(Des)PROPÓSITO

(DES)PROPÓSITO
Via a morte
Aproximar-se
Da vida
Viver era lendário
Incontrolável lógica
A ideia de haver
Protegia-se do aventuroso perigo
Estouvada expectativa
Ele, nada a gerar vazio
Encurralado na terra
Espaço não sendo lugar
Expandia o espaço possível
Eternizava-se, lenda inalcançável
Sobrevivia a sobrevida
Na plenitude do transcendente
(que pouco transcende também)

TEMPERANÇA

TEMPERANÇA
Aproximava-se do encanto
Variava permanentemente
Elevava-se humano
Era alternativo
Vencido pela vontade
Na vivência integral
Do pensamento
Corpo e mente
Submetia-se ao excesso
Oposto do ático.
Hilda Helena Dias
Imagem: Temperantia, da autoria de Luca Giordano

DESORDEM

DESORDEM
Projetando-se no mundo que nada sente
Ele,mediador da ordem
Ameaçada pela sensibilidade
Em meio a sentimentos agitados
Não sentia com o pensamento
Perdia-se nos amores finitos
Insano, organizava-se.
Hilda Helena Dias

HOLOCAUSTO

HOLOCAUSTO
Desconhecia o labirinto de ser
Resoluto, estornava o íntimo
Deleitava-se na mente livre
Que desobrigava vontades
Humaníssimo, confrontava-se
Preferências moravam no revés
Ser todo ele não podia
Fracassos marcavam caminhos.
Ele era um simples eu quero
A determinar não posso
E o universo vigilante
Sacrificou-lhe vivo.
Hilda Helena Dias

AMIGA OCULTA

AMIGA OCULTA
Ela é a outra que me ouve
É aquela que não tem nome
Nem história
Para ela passado nem existe.
Perguntava-lhe o que de mim sabia
Respondia que eu era a profundidade
Chão longe dos meus pés
Reflexos foscos de não sei.
Arrebatadora vida oculta
És o universo que não cabe fora de mim.
Hilda Helena Dias

CLICHÊ

CLICHÊ
Repetidos eram os dias
Ele, tão excêntrico pecava sendo normal
Projetava-se e não se via
Sem originalidade expressava-se
Refletia estereótipos que não lhe cabiam
Ia sendo o que não queria que fosse
Regenerava-se desconhecendo o que era.
Hilda Helena Dias

LEVITAÇÃO

LEVITAÇÃO
Eu, leve, não me sustentava
Atraía o meu desconhecido para ser
Com olhos leigos duvidei de mim
Era meu corpo atraído desorientando-se
Vi fora de mim
O que está dentro de mim
Na leveza de ser no mundo um ser
Fui sendo eu fora de mim.
Hilda Helena Dias

LIVRE ARBÍTRIO

LIVRE ARBÍTRIO
Livre, sou prisioneira
Ser me deixou sem escolha
Uma névoa na mente livre
Constrangeu minhas vontades.
Ah liberdade aprisionada no depois
Mera ilusão de vida.
Em protesto, invento você!
Hilda Helena Dias

Precisão

Precisão
Desfiz o que precisava ser feito
Quando o mundo me deu
Um dia de cada vez
Ocultando-me o amanhã.
E eu aqui com os pés no chão
Com essa urgência de viver
Ah essa pressa _ de qualquer coisa.
Caminhar às margens
Enlarguecer estradas
Criar espaços.
Troco um dia de vida
Faço o que é preciso
Para me surpreender
Não tenho tempo para lamento.

MONÓLOGO

MONÓLOGO
Sou aquela que pouco conheço
Aquela que permite a desconhecida
Dizer o que conhece do desconhecido
Que mora no meu ser.
Não me apavoro com a imigrante.
Dizendo conhecer o eu que eu desconheço
Me dou conta que ela é
A estranha de mim mesma
Que me permite ser particularmente
A revelação além de mistérios.
Hilda Helena Dias

DOMÍNIO PRÓPRIO

DOMÍNIO PRÓPRIO
Gosto do conjunto das relações
Que não entendo ou não aceito.
O que me surpreende 
Não é a existência do caos
E sim eu sendo ordem nele.
Rumo ao acaso
Num voo sem direção
Movimento-me desordenadamente
Espaço não é lugar, não me perco.
Ele me clareia.
O que importa o que sobressai
O que tem relevância para mim
É o que faço para ser quem eu sou
Posso sentir o sabor com as asas
O que sei que sinto, por si só já é.
Às vezes, um conhecimento
Para além do desejado.
Hilda Helena Dias

DÚVIDA SUSPENSA

DÚVIDA SUSPENSA
Com a mente dividida
Não se vestia de milagres
Era a onda do mar
Levada pelo vento.
Em legítima defesa
Provava sua índole
A uma sombra vidente
Que gemia mistérios.
Esgotou-se a dúvida
A entregar certezas.
Hilda Helena Dias.

LAMENTAÇÃO

LAMENTAÇÃO
Ah, queria por ele ser beijada
Se a boca a cobrisse de beijos
Sim, carícias melhores que vinho
Fragrância suave derramada.
Intenso poder a levaria
Bem depressa às sombras do dia
Mergulhada no escuro, o seu batismo
Descansando ao meio-dia.
Mas celebrava mais o vinho
Do que o amor
As amigas lamentavam.
Hilda Helena Dias

PREDOMÍNIO

PREDOMÍNIO
O infinito limitou-se
Colocou-se no estado primitivo
A fundar reinos e domínios
Ei-la: sua manifestação.
Dominando-se, se revelou vivo
Hierarquizou alguns poderes
Vomitou a morte do seu túmulo
Deu a ela uma vida.
Afundadas as estrelas em penumbra
Constitui-se ainda potência
Fez do mundo um deserto
Mantendo os mesmos prisioneiros.
O finito era a ira do infinito
Dominando início e fim.
Hilda Helena Dias

LABIRINTO

LABIRINTO
A encadear partes de ambos
Amarraram-se um no outro
Mesclavam-se e confundiam-se
A rede formada
De segredos laçados
Era um labirinto de fios.
Em que se perdiam.
Hilda Helena Dias
Foto: Google- Fios de Ariadne.

ALEGORIA

ALEGORIA
Repetia seus pânicos dia a dia
Emblemático seria não tê-los
Fraquezas vigorosas
Construíam fortalezas.
Soberana, com um brasão de guerra
Protegia-se como podia
Num ato de coragem criada
Derrotava debilidades.
Aceitava a panóplia
A cobrir fragilidades.
Hilda Helena Dias
A ESTERILIDADE DO ESCURO
Encontrou com o escuro
A carregar ausências
Desejo de continuidade.
Lúcido, reduzido a nada
Sem a luz
Lutava para estar vivo.
De olhos abertos
Na líquida névoa
Era a morte e não a vida
Com medo de si mesmo
Fechou os olhos
Para ver a claridade
A pairar em águas profundas.

Hilda Helena Dias

INTIMIDADE

INTIMIDADE
Nos toques de carinho
Nossos corpos se matizam
E com mãos de oleiro
Damos forma ao momento.
Juntos, permitindo-nos devaneios
Sem palavras reprimidas
Em harmonia com nós mesmos
Libertamo-nos.
Na penumbra luminosa dos desejos
Conhecemo-nos por inteiro.
Hilda Helena Dias