sábado, 2 de janeiro de 2016

NEGOCIATA

NEGOCIATA
A morte o cercava lentamente
Mente alimentada de dor
Com escudos negou-se
Hostilizou a vida ainda disposta
Fez barganha com Deus
Nada a oferecer, nada a ganhar
Afirmou-se inacabado
Sem medo da vida, não matou a morte
Entendeu-se: não adia o fim
Nasce e morre no segredo de ser só!

RECADO DADO



RECADO DADO
Mariazinha
De infância preto e branco
Mistérios cinzas 
Encolhida nos vãos
Mariazinha ainda pequena
Como agir, falar?
Via lobos feito ursos de pelúcia
Mariazinhas nunca sabem o que fazer
Nojentos escrupulosos
Cuspindo na vida
Vitimizam pelo medo
Abuso vira segredo
Desgraçados
Desfilam a imponência
Mariazinhas crescem
Não perdem a memória .

JOÃO E A LOUCURA



JOÃO E A LOUCURA
João de vez em quando
Mergulha na alucinação
Morre
Domina a morte ressuscitando
Dorme para acordar
Vive depois
Um espírito dentro dele
Não separa
Fantasia e conhecimento
João não é ficção
Foi internado em
Agosto nos Campos do Norte
Num hospital psiquiátrico
No ano de 2009
Recusa-se enquanto louco
Tão louco é João
Nem tem medo de existir amanhã.

HEGEMONIA

HEGEMONIA
Sendo globalizados
Na escassez de equilíbrio
Voluntariamente suas mentes
Deixam-se dominar
Na busca do escape à liberdade
Protótipos amontoados
Percebem-se sós
Remanescentes blindados
Com um plano único
Compreendem-se integrados
Revelam estratégias articuladas
(A sobrevivência é o prêmio possível ).

EXPRESSIONISMO

EXPRESSIONISMO
Estou cercada do indesejável
A realidade maquia o caos
Que não pode ser controlado
O invisível se disfarça de moral
Deixo cair o véu da invisibilidade
Abrigar o superficial não cala
Projeto-me sem espelhos
Os que mais veem são cegos
Não sou ser isolado
Apenas tenho meu estilo
Ao direcionar meus conflitos
Nego ser base da realidade aparente
Sou mais forte que o medo que me abriga.
Hilda Helena Dias
Arte: Vicent Van Gogh

REALIDADE SINGULAR

REALIDADE SINGULAR
Com a chave da dúvida
Abro gaiolas e voo enquanto houver forças
A realidade é rio em movimento 
Depara-se com obstáculos
Contorna e continua como eu
Rejeito estabilidade e enquadramento
Coisas são conceitos, eu não
Dinâmica e particular
Não temo o desconhecido
Nem o conheço para temê-lo
Morro a cada amanhecer
Busco entrar em minha existência
Sou conjunto de tudo
Desapegada de mim
Saio à caça da surpresa
A existência é neutra.

PROJEÇÃO I

PROJEÇÃO I
Inconstante é a vida
Em rotinas, minúcias
Outorga poderes
Hierarquias nas relações
Virando clichês
Sou pessoa de dois polos
Danço o baile das reações
Num curto espaço de tempo
Força que me desbanaliza
Vitalizo-me indo e vindo
Para as mentes anestesiadas
Meu coração é desorganizado
Meu drama: não ser só indivíduo
Dissolvido em pleno ar
Permito-me ver minha outra
Não me diminuo,não me misturo
a sistemas duramente impecáveis
Que projetam a invisibilidade
Permito que me flagrem visível
Afinal, tenho um coração vivo.
Hilda Helena Dias

NÃO POSSO SER EU

NÃO POSSO SER EU
Como poderia, como
Se sendo meu ser me arrasta
Na direção dos penhascos
Para alturas e vertigens
Evito ser eu mesma, esse perigo
Essa condição tão extrema
Como a de uma galáxia pequena
Que some num buraco negro
Meço os passos, modulo a voz
Para ter certeza: não sou eu
Este não ser é que me confirma
A mim mesma e sua liberdade
Nunca seria eu, jamais!
Assim me salvo, assim permaneço
Legítima como sempre fui
Distante de todos os espelhos.

RÓTULOS

RÓTULOS
Fazia de conta que gregos não existiam
No corpo, novas digitais o identificavam
Delatando-se, era discurso negado 
Depunha-se persona
Nunca suicidou o original
Amava-se amplamente
Nos espelhos críticos
Buscava mais um em si
A realidade ilusória não o
Deixava caótico
Na prisão de ser
Jamais aceitou-se refém
(Matava logo o conflito existencial
A morte não era centro de especulações).
Hilda Helena Dias

HERMENÊUTICO

HERMENÊUTICO
Traduzo-me significativo
Diariamente respondo por mim
Sou levado a compreender-me
(Leio-me ao escrever meus dias)
Ao expor-me sou sujeito a sentenças
Cheio de históricos passados
Manifesto-me até escondido
(Reformulo-me por não ser definitivo)
Abarco na totalidade do que importa
Falo comigo e me ouço
Na íntegra tenho intenções
(Estruturo-me sendo)
Ao projetar, me interpreto
Ao ser, deduzo quem sou
Pelo sentido,descubro outros sentidos
(Revelo-me texto original)
Hilda Helena Dias

CORPO E COSMO

CORPO E COSMO
Respiro no meu universo
Singular, surgi em energia
Concentrada, densa e quente
Prolifero-me de forma acelerada
(Não ignoro meus segundos)
O cosmo ameaça se dissipar
Não chora a morte como eu
Concentro-me no meu escuro ainda pequeno
Desdobro-me em muitas outras
(Acredito nas múltiplas de mim)
Materializada, vivo um tempo determinado
Não pertenço a nenhuma galáxia
Sou capaz de desdobramentos
Vivo meus “eus” por inteiro
(Projetando-me viverei minha transmutação)
Hilda Helena Dias

EXTENSA



EXTENSA
Minha realidade estrutura-se num
Obscuro que não posso evitar
Tensa, coloco em desordem meu cosmo 
Encho-o de emoções e desejos
(Ativo minha alma)
Livro-me dos rastros morais
Sou quebra-cabeça que perde peças
Reencontro-me naquilo disperso
Faleço momentos ao evoluir no tempo
(Minha consciência será suprimida para sempre)
Vida é nicho deixado pela extinção
A morte legítima e legalizada
Estabelece-se na minha existência
Ocupa meu espaço e necessidades
(Longe de mim chegarei ao final)
Não sou eterna devido à minha extensão.
Hilda Helena Dias

SIGNIFICÂNCIA

SIGNIFICÂNCIA
Paro de vez em quando
Fico em silêncio diante do Universo
Não peço para pensar
Não imploro nem agradeço nada
Apenas vivo o calado momento
Na dimensão do cosmo
(Ajoelho-me, mais a alma que o corpo)
Maravilhosa e aterrorizada realidade
Sobre o planeta deito e rolo
Corro para me alcançar
Evoluo gradualmente
Possuo um universo anárquico em mim
Consciente, manipulo a memória
(Permito-me sair do mundo externo)
Inábil, não me controlo viva
Minha carcaça inerte em conflito
Acha-se ligada ao que respira
Não me mato por causa disto
Suponho ter meu valor
Humildemente, vou longe
( Sou um ponto diante da Terra)
Hilda Helena Dias

POTÊNCIA

Potência
Ativo o prazer com intenções
Com significantes digitais
Enuncio meu idioleto pessoal 
(Supero-me ao tentar definir-me)
Não limito meu inconsciente
Com ele aprendo a ser exuberante
Torno-me possível ao exaltá-lo
(Recolho-o em mim mesma)
Evoco-me em rede
Balizo minhas realidades e transformações
Encontro-me potência ao evoluir antes da morte
(Sou finitude em função do desconhecido)



PROJEÇÃO



PROJEÇÃO
Sem defesas, olho para mim
Fraqueza deixa de ser sombra
Arrisco-me a ser rejeitada
Por não me culpar por ser fraca
(Nego-me a me idealizar nos outros)
A fragilidade não me sufoca
Não camuflo sentimentos ocultos
Entro em contato com eles
Sob a superfície aparecem
(Exalto a razão ao ser pó no universo desconhecido)
Não reajo insensatamente ao lidar
Com traumas desorientados
Projeto-me no mundo dos meus significados
Como se pudesse reordenar motivos
(Me aceito ao não anular-me)
Eu, projeto inacabado
Tenho uma cidade aos meus pés.
Hilda Helena Dias

ESTRANHAMENTO

ESTRANHAMENTO
Estranhas de mim aprisionam-me
Trancafiam meu querer
Ao saírem por aí com
Roupas que não me cabem
(Elas têm vontades herdadas)
Esbarrando-me com essas que sou
Desconheço roupagens internas
Distancio-me de tudo que conheço
Elevo-me diante delas
(Circunstancial, me aceito complexa)
Hilda Helena Dias

INTERVENÇÃO



INTERVENÇÃO
Queria viver os miríades instantes
De maneira que se orgulhasse deles
Ao ponto de querer eternizá-los
(Seria lenda para toda vida)
Tentava regular a realidade
A consequência no corpo era o
Diagnóstico que precisava da memória
(Vontade própria era assunto interno que
Pairava em areias em movimento)
Dentro dele uma vida intensa e
Estranhamente original
Mediava situações adversas
(Misteriosa, provocava-o)
Ao ser diferente, reabilitava-se
Desenvolvia habilidades que lhe
Eram peculiares
(Manifestava-se metamorfoseando-se)
Ser outro, a cada dia, o confirmava.

NUNCA NEGAR-SE


NUNCA NEGAR-SE
Amava-se incondicionalmente
Na origem era mais que humano
Em órbita na Terra
Existia em potencial
(O ego merecia defesa)
Se o real, coberto de feridas,
Não confirmava o existir,
Ele, alegre e exuberante,
Construía uma existência superior
(Evoluía em vez de cristalizar)
Afirmava-se conscientemente
Buscava um mundo que não o
Reduzisse a menos que pleno
Existir fortalecia a ficção – ou não
(Negar-se seria entregar-se vivo)

A ESTRANHA QUE AMAMOS

"De Monica Martins este presente para mim"
A ESTRANHA QUE AMAMOS
Nasceu como a luz
Fadada a brilhar
Mesmo nas trevas
Ser celeste dotado
De humanidade
Olhos microscopistas
Alada, transpõe muralhas
Pairando sobre o novo
Expandindo a Terra
Mística, mesmo em grades
Liberta a outros
E a outros mais
Quando livre,
Asas sempre abertas
Prontas para partir
A biruta que lhe guia
Coração direcionado
Lhe é peculiar.

ERMITÃO



ERMITÃO
No solo psíquico seu eu
Encontrava-se só
Negava tudo que por ele
Não tinha vivido
(Amava-se extremamente)
O mundo nem existiria se
Não tivesse experimentado
Sustentava-se a observar o
Universo que conhecia tão pouco
(Valorizava-o, dele fazia parte)
Conhecia bem menos que queria
Radical, experimentava o real
Via o outro que como ele
Parecia parte de tudo que existia
(Travou-se uma batalha íntima)
Maluco e emotivo
Continuava a existir
Com os pensamentos firmados na areia
Independente, experimentava a existência
(Doutrinava-se para projetar a mente)
Hilda Helena Dias
Imagem: Caspar Friedrich -O Caminhante Sobre o Mar de Névoa-1818

AUTONOMIA

AUTONOMIA
Heterônomo, desviava-se do normal
Libertava o conformismo
(Não rejeitava mudanças)
Causas mágicas e míticas
Não eram destino
(Constituiu leis para si)
Sem arbítrio, manifestava
Vontades livres
(Admirava-se por não ser opressor)
Pintura de Joel Rea

A FINITUDE DO INFINITO

A FINITUDE DO INFINITO
Meu corpo antes celeste
Firmou nas entranhas da terra
Tornei finito o infinito 
Ao ser ainda em águas placentárias
Projeto de um fim
Colaram-me a pele do mundo
Tatuada com idealismos dogmáticos
Eu transcendental em
Decadência ousava
Experimentar minha autonomia.
Hilda Helena Dias

PRENDA AO TEMPO



PRENDA AO TEMPO
Fruto do passado exposto ao sol, ao
Silenciar o despertador
Distancio da vida no início do dia
O mundo metódico mede momentos
Antes do agora, ao investigar-me
Vi comportamentos deixados para a história
Ser cósmico e transcendente
Sem-fim definido era essência exalada
O meu agora ao tempo ofereço
Atrevida, vivo a vida.
Hilda Helena Dias
"Relógio - Aquarela Floral" - Ivone Harry
Pintora norte-americana contemporânea

SUBSERVIÊNCIA

SUBSERVIÊNCIA
Não posso ser escrava do mundo
Que não arrepia a pele
Da vida eu já sou
Ela me segue com
Existência breve
No movimento de existir
Transporto a morte
Cabe a mim, eu um
Espectro humano escravizado
Emocionar-me por estar viva.

FILIGRANA

FILIGRANA
Preenchido meu espaço de pensamentos
Com olhos para dentro me via
Pedra bruta
Propensa a detalhes
Apenas via a memória
Sem espelhos
Um encontro incômodo
Quase me decifrava
Exposta para mim, sem
Alegorias censuradas a
Arder em explosão
Encontrava-me demais
Original, ornamento
Delicadamente a vida
(Viver para sobreviver é pouco)
Hilda Helena Dias

MULTIPLICIDADE

MULTIPLICIDADE
Sou personagem da
Exuberante vida
Minha memória alternada a
Cada dia
Revela-me.
Mudo de papel
De cenário, de
Rumo ou posição
Ao viver meu contraditório
Sou eu no plural
Ser antagônico, com a voz de
Inúmeras contradições e
Olhares paradoxos
Descubro a igual medida de
Meus limites
Sou múltipla ao
Expandir-me.
Hilda Helena Dias
Imagem da Artista Plástica Joana Ricou

MISTÉRIO COMPREENSÍVEL

MISTÉRIO COMPREENSÍVEL
Meu olhar lendário
Em campo aberto
Deixa-me oculta
Ao revelar-me
O horizonte de mim
Mostra-se com reservas
Intrigante enigma
Prevenida escondo limites
De sobreaviso sou exótica
Apego-me aos desafios
Não vejo, nem revelo
Segredos são aprendidos.
Hilda Helena Dias

PEQUENO SOL

PEQUENO SOL
Sozinha no
Tempo e no espaço
Presa na ausência de caminhos
Encontro-me e
Perco-me
(Não tenho os trinta e
dois sentidos
da rosa- dos- ventos)
Aonde nascem as plantas
Eu vivo
Sem bússola, no próprio
Território
Oriento-me a
Alcançar o acaso
(Fatal é o fim)
Menor que o sol,
Com temperatura, cor
Bem antes, sou estrela.
Hilda Helena Dias

PERMITIDO

PERMITIDO
Eu, na legitimidade de existir
Não caibo no permitido
Legal, estabeleço regras, a
Justificar existência,
Dominação que me caiba
Ando bamba, de acordo
Com as normas
Sem domínio,
Legalizo
Poder
No divã dos mutantes, a
Confessar quem sou
Choro, garanto minha integridade.

RENASCIMENTO

RENASCIMENTO
Desafio o limite da razão
Da imensidão, que nada
Tem para revelar
Inauguro minha eternidade
Sem medo, meu mundo
Ganha quase vida própria
Num universo desencadeado
Eu, tão perto e longe de mim
Empenho-me
Vivo crises
Mudanças
Autonomia da metamorfose
(Essa liberdade)
Minha alma sem memória
Desconhece a terra natal
Verdades eternas a carregar, a
Despertar o espírito renascentista.
Hilda Helena Dias

ARQUÉTIPOS

ARQUÉTIPOS
Eu, a heroína
Na clareza de estar
Avistava bem distante
A possibilidade de me ver
Estruturas invisíveis do ser
Reprimidas, organizavam bailes
Para mim, máscaras disponibilizadas
Presente para as personas em sombras
Neguei-me usá-las
Sou peculiar.
Hilda Helena Dias