terça-feira, 3 de maio de 2016

grito

Grito

em muralhas
de folhas doentes
caminha a
humanidade

espreme-se
sumo dolorido
das coisas
que não
se entendem

caras esculpidas
no tempo
anoitecem
olhos dão
bofetadas

a boca em
tortura
não tem
palavras

o ouro depura
a garganta dos
loucos
e daí o
grito.

Hilda Helena Dias

no meio dos homens

no meio dos homens

vive-se
em teias
a pele
sente dor
sem armadura

tendo muito
de ovelha
quase nada
de tosquiador
sem dizer
palavras
seguia

seu corpo
Casa da Alma
era luz
que o
lembrava
ser
humano.

Hilda Helena Dias

Fotografia:  Arô Ribeiro
RELAMPIÃO - Antes de começar.
A Cia. do Miolo e a Cia. Paulicéa de Teatro juntam-se nesse processo para revisitar as histórias de Lampião, o mito do cangaço, e aproximá-las das questões cotidianas de nosso tempo.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

No meio da noite

no meio da noite

vi alces da
madrugada
correndo entre
plantações

tinham manchas
coloridas
que encantavam
a noite

na manhã
estavam
mortos
das ciladas
premeditadas

antes de
amanhecer
me vi
como um
deles.

Hilda Helena Dias

Reindeer Desing by sketchinthoughts.

Vazio

vazio

um fogo de
angústia
soa no
ouvido de
um corpo
ferido

emergido
sem compassos
dentro dele
o incêndio
do Nada

o rosto
em rio
carrega a
aventura de
novamente
esculpir seu
reflexo no
vazio.

Hilda Helena Dias

Arte: João Carvalho

sábado, 30 de abril de 2016

delírio

delírio

enlouquecia sem
recusas
sem receios
da sobriedade
que ampliava
o que condenavam

celebrava o
desconhecido
repensando a
carne e o
corpo
livre de conceitos

pois não lhes
convém palavras
desconhecidas que
ofendem as paredes?

deita-se a noite
e afasta-se da
Galáxia.

Hilda Helena Dias

purificação

purificação

carne viva
é a vida
pendurado na
forca
provamos
seu gosto
com
veneno
de cobra

devoro-a
e mergulho
na pouca
água jorrada
me limpo em
suas lágrimas
e me visto.



VOID - Abismo
Performance for Camera
Ana Montenegro and Maurizio Mancioli, collaboration.
Installation: Acquabox, location: Parahaus.
São Paulo, 2015

segunda-feira, 25 de abril de 2016

CONFIRA!!!

Veja isto: https://issuu.com/revistaalagunas/docs/pater

Participo desta edição com dois poemas. A revista ALAGUNAS tem uma proposta tremenda. Vale a pena conferir!!!

não sei morrer

não sei morrer

meus traços
indefinidos
pedirão
meu sangue
fervendo

meus olhos
estagnados de
água
molharão a
morte por
não saber da
minha presença

nula e inerte
ao silêncio
sem santo
por perto
enterro
raízes perdidas

a vida suicida
cansada de
viver
diz que gosta
de mim
mas assiste
meu fim

solitária
com asas
sem ter
onde repousar
sou louca
em meus
sonhos
teço roupas
para os vivos

talvez
nas minhas
entranhas
sempre
tenha existindo
um deus.

combate

combate

homens escrevem
seus nomes na
brancura de
serem repetidos
humanos
em existência
nua

no combate
a luta é
contra
abutres
cobras e
porcos.

Hilda Helena Dias

Carl Larsson (Swedish, 1855-1919), "The Witch's Daughter"

sem clareza

sem clareza

nossos corpos
geminados
contra leis
e normas
duplica
gritos

os relógios
distorcem a
voz
dando razão
as horas
partidas

presa no
mais dentro
de mim
saio do
mundo
eternamente.

Hilda Helena Dias

formas nulas

formas nulas

o que no ser
se aprofunda
é sentido e
guarda forma

a memória
perturba o
tempo
buscando o
antes do
início e
do fim

no nada
multiplicado e
disforme
a possibilidade
mais lúcida
de novos
segredos.

Hilda Helena Dias

Imagem
Vanitas - Presentimiento

(B)eco

(B)eco

frente a
frente
falo com
a rua
escura e
estreita

os dentes afiados
da escrita
trituram o
descaso
de significados

como
esse nada
necessário.

Hilda Helena Dias

Foto: Arô Ribeiro

círculos crescentes

círculos crescentes

giro em
espirais
crescentes
sem completar
círculos

tonta de
tanto
girar

tento ser
ave arisca
raios e
trovões
grande
gigante que
canta

sou quase
deus
estremecendo
em
vibrações.

Hilda Helena Dias

Belo horror

belo horror

a noite
demora
em mim

nostálgica
me canto
enquanto é
imortal a
ternura

amando-me
me torno
pássaro
num voo
mais
comovido

em mim
mesma
o voo

nas entranhas
busco
vestígios de
eternidade

não mais
sendo e
sem desejos
com o próprio
nome
abandonado
o belo é o
terrível que
se desfaz.

Hilda Helena Dias

Ludovic Florent a voulu capturer la beauté des mouvements des danseurs professionnels. Il a donc réalisé une série de photographies, "Poussière d'étoiles", où des danseurs nus effectuent leurs pas sur

nós

nós

nas falas
necessárias
a certeza da
presença
abre portas
de dentro

entre goles
e petiscos
a noite
inteira
é festa

somos amor
e morte
sobrevivendo
ao tempo.

Hilda Helena Dias

fim

fim

a morte intocável
no corpo inteiro
se alonga
o medo incontido
resguarda-se no
silêncio

a fuga dos meus
gestos e a
cor dos meus
sonhos perdida
é inútil
indo só

na partida
a forma sumindo
existe perdida
num encontro
desfeito na
memória do
amor ausente

consumida nas
incertezas digo
coisas caladas
que nem sei
ouvir.

Hilda Helena Dias

IN THE CLOUDS
Performance for Camera
Ana Montenegro and Maurizio Mancioli, collaboration.
São Paulo, 2014

palavra virgem

palavra virgem

as palavras
não vêm
e quando vêm
são falhas e
imprecisas
canto apelando
a todos os
gêneros

a ausência
caminha no
sonho
em redes o
mistério da
vida

soluços perdidos
na madrugada
em terra
sem tradições
traz o que é
preciso ser dito

a gente chega e
se vai
distante do mundo
derrotados pelo sonho
sem porto
sem direção
busco palavras
puras
no raiar da
manhã
perdidas na
madrugada.

Hilda Helena Dias

LUZ DA ZONA
Foto de Cláudio Zeiger
Feitas no Espaço do Grupo e Agrupamento Teatral- Com Arô Ribeiro em São  Paulo

eternidade

eternidade

no eterno
cansaço
meu nome será
fumaça de neblina
tédio cinza
no completo
silêncio

no sono imenso
penso a vida
exuberante e
perene.

Hilda Helena Dias

Foto: Google

Procura

Procura

seres surdos
e cegos dos olhos
não ouvem o
canto daqueles
que o amor
feriu
sem derrubar

homens conformados
de sorrisos inúteis
deixam de ser
caminho
com suas bocas
fechadas e
mãos atadas

humanos sem
amigos e
sem esperança de
retorno com
asas cansadas
procuram um
deus.

Hilda Helena Dias

Fotografia: Arô Ribeiro

velório

velório

a morte por perto
é silêncio e
desespero
palavras e
soluços presos
na garganta
viram vazio
dor e
escuro

sem nada a
dizer
sem querer falar
escondo fantasias
solenes e mudas
sonho de mãos
dadas com quem
chora e que
por mim
nunca chorou

na retina
o espanto
o homem é
humano
frágil e
só.

Hilda Helena Dias

Imagem: Diego Rivera.

mundo mudo

mundo mudo

a vida se
desfaz
aos poucos
morre
sem o paladar
da eternidade

pessoas sós e
amadas
se perdem no
que a boca
não diz
num mundo
sem som.

Hilda Helena Dias

medo

medo

na entrega
perco-me na
confusão de
ser amada
o mundo escondido
em prantos
canta o amor

a morte concebi
em pensamentos
nas noites
nos meus olhos
de criança
o medo

o medo
o medo
o medo...

aproxima-se da
fantasia e a
presença fica no
leito subterrâneo
sem desejos
somos pássaros
sem asas

submersa
vejo paisagem
sem cor
dentro de mim
a certeza
do impossível.

Hilda Helena Dias

THE LOVERS
Performance for Camera
Ana Montenegro and Maurizio Mancioli, collaboration.
São Paulo, 2015

domingo, 24 de abril de 2016

Gestos fundos.

gestos fundos

murmúrios escorrem
da fonte
descanso em teu
peito minhas
mãos sepultadas
a fecundar sementes
de vida

meu pranto
grita em meus
ouvidos
nada sei dizer
melhor não falar
não há  lugar para
palavras
por isso não há
desencanto
sem gestos rasos
não se mente amor.

Hilda Helena Dias

Peregrino

peregrino

a morte conduz
o amor do
começo ao fim
o que é visto
tolhe a imaginação

inventa-se
além do presente
a fantasia da
vida

sem perder o
bem
a alegria em
alegoria
define o que
não cabe ao
peregrino descobrir.

Hilda Helena Dias

Filhos da Noite

filhos da noite

com permissão
sinto beleza
nas coisas que de
mim não
escondes

desabrocho em
promessas
quando você se
expande

nossa culpa é
redimida nas
palavras loucas
no ouvido
que morrem comigo

no choque da
doida investida
soluços não ouvidos
se abrem em
choro,
promessa e
dor

amados
transformados
em noite
florescem como
filhos do medo

na áspera rocha
pressinto  a fonte
renascendo
o amor abraça e
morre comigo.

THE LOVERS
Performance for Camera
Ana Montenegro and Maurizio Mancioli, collaboration
São Paulo, 2016

Luto

luto

na hora da morte
falas de generosidade
o corpo com medo
da terra
vê enterrado um
amor maior
existente em si

a memória perdida
depois do tormento
fica só
no pensamento
areia e sal
temperada no
esquecimento
em busca do mar
vê rio

na escuridão
deixaste a terra
depois de
alimentá-la .

Hilda Helena Dias

Haicai de Alexander Martins Vianna  do poema:

antes da morte
o corpo com medo
se enterra

sexta-feira, 18 de março de 2016

efemeridade

efemeridade
sós
de mãos dadas
na lua nova
vemos a
imensidão do
nada
nada sei
mais nada sei
nada de amor
de olhos abertos
seres não vêem
na noite sem
fim
procuro a mão estendida
do amigo
com a efêmera vontade
de ser mais vida
menos morte.
Foto de Hilda Helena Dias.

peso destilado

peso destilado
as vontades primeiras
agigantam disformes
não há caminho
para percorrer
meu corpo de argila
advinha
o que não se diz
o amor no
choro estremecido
fala da pouca
felicidade
na infinitude
dos amantes
a morte confidencia
a perca de
voos mais altos
o corpo chora
e destila o peso
do outro ser seu.
Foto de Hilda Helena Dias.

flor mórbida



flor mórbida
vejo a flor do
túmulo
tatuada em
mim
os dias vestidos
de sombra
nu ficam
sonhos pedidos
exalam em
raízes largas e
maduras
minhas asas
exiladas descontentes
fazem-se contentes
com pupilas azuis
vê-se beleza
no desatino.
Fotografia: Arô Ribeiro

Escuridão

escuridão
a noite feroz
se prepara
avizinha e 
advinha
num só tempo
o ser múltiplo e
imóvel
não sabe ser
terra
ao sonhar com
olhos inocentes
assisto o anoitecer
com espanto
ando comigo
invento caminhos
e reinos
a vida breve
leva-me sem
ódio e sem
amor
deixa-me só
na singeleza de
existir
no escuro
afinal
a certeza de
nada ser.
Fotografia: Arô Ribeiro
Foto de Hilda Helena Dias.

Mudez

Mudez
o silêncio maior
que a solidão
não cabe na
noite
a relíquia da
memória com
mordaças no
tempo presente
tem pouco a
dizer diante
da alma criança
entre a verdade e
infernos
a trama em silêncio
inventa-se magia.
Foto de Hilda Helena Dias.

Cântico



Cântico
com a cabeça
na lua
com asas livres
na solidão de um
sofrer sozinho
passos leves
na trilha
amante da terra
vivo e
padeço
me perco no
breve momento
brisa leve
pertenço o outro
perdida em palavras
raras
canto
um querer claro
com enlevos
a vida breve
bate asas e
depois
nada.

Infância

Infância
me perdi na
criança confusa
que fui
ao anoitecer
a conversa com
o medo
sem defesas
nunca soube o
que dizer
dos contos de
fada
o vivo de
mim
sempre se calava
me espanto
sou infância
sem controle
delirante
dou risada
escolho o mundo que
vivo
nada além disso.
Fotografia: Arô Ribeiro
Foto de Hilda Helena Dias.

arcabouço



arcabouço
em paredes
canto mais alto
encanto o sentir
na fonte primeira
meus mitos
nos castelos lendários
me aqueço

me despojo
de solidão
sonho o delírio
no mergulho da noite
o medo
canta o que a
alma deseja
sem palavras escolhidas
em luares e desertos
desdobra-se
afeto e amor
sem nada entender
de voos e pássaros
desenho meu voo
penso o arcabouço
limito-me no pouso
aprisionada
contento-me de sonhos.
Foto: Arô Ribeiro

Passeio nas sombras

Passeio nas sombras
mesclada de
céu e terra
com lua nas
duas órbitas
minha alma sofrida
de inocência
canta
passeio nas sombras
das luas ausentes
oposta ao vento
meu olhar tardio
caminha entre
dois mundos
desdobro-me no outro
me vejo
no tempo guardo a
dor e anuncio
que sou pedra
talhada
ressuscito alegrias inteiras
da madrugada
meus ouvidos
abertos a ternura
vê meu sangue
em ouro se
transmutar
a minha verdade é
póstuma e secreta
em direção oposta ao
vento
caminho entre
dois mundos
me espanto
elaboro em vão
meus sonhos na
solidão mais funda
o amor perfeito e
indivisível
na carne punida
em mim se faz
enquanto no ódio
dos deuses sou lembrada
a noite me atinge
te sonho
deito-me sobre o
tempo que virá.
Arô Ribeiro

Canto partido

Canto partido
entrego-me a terra
na minha dádiva
ela generosa me
toma e aceita e
vê meu rosto igual
a outros mortos
o instante não
se afasta de mim
padeço no meu existir
e não me perco
no outro o
ouro mais fundo
coisas breves tomam
conta do ser
saga transformada
em chagas
em sombras e brasas
vejo o amor perdido
no sopro da agonia e
gozo
ouvirá o meu
silêncio pesado
porque o amor
se fez e conduz a
eterna dor e
desassombro
amo a terra como
mãe sofrida
vejo-a esplanada
livre de minha
aparência
afundada no vão da
terra
sou arcabouço no
descanso e rudeza
na morte de mim
um canto partido.
Performance para Câmera: Ana Montenegro
Foto de Hilda Helena Dias.

tempo de espera


tempo de espera
minha alma
olha o tempo galopar
o vento me guarda
dos escorpiões no
meu pouco de terra
a dor do silêncio
contínuo
passeia no muro
da morte
procura em renúncias a
descoberta do fim
o suor invisível
toma corpo
no medo
multiforme e
calado
o amor.

a viagem

a viagem
extensa na Terra
tantas de mim
se despedirão
pródigas
o corpo de
amor configurado
será passado
de mim
no escuro labirinto
me faço
meu corpo de carne
envolvido
move-se a
medida do amor
um rosto de
barro esquecido
viaja no todo
de ser memória
coberta de recuos
guardo-me
minha memória
há de ter asas
e em brasas
meu peito é leveza.
Foto de Hilda Helena Dias.

sem repouso

sem repouso
no equívoco da
transparência
meu opaco visto
passeia na terra
na claridade confusa
não me vejo
nem sei de mim
a verdade revestida de
sombras é minha
lentamente um todo meu
se alarga
com ousadia penso
a infinitude múltipla
o corpo assustado
fechado no portal
sem freio canta a
vida e sangue
o pensamento alimentado
projeta sem limites
a renovação dos corpos
pulsa e não repousa
a ideia
nela me faço.
Hilda Helena Dias

O pouso

O pouso 

o peito transparente 
em plenitude 
voará na distância 
e no tempo
viajarei só e
eternamente

não estarei comigo
minha voz entre
muralhas falará
do infinito

no sonho
canto a metamorfose
vejo na asa do silêncio
meu espírito pairar.

meu corpo de luz
se moverá em
direção ao Sul
há de achar uma
clara morada

Hilda Helena Dias

Fotografia: Mário de A. Andrade, via Arô Ribeiro.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O cântico

O cântico

dentro do coração
durmo
no ventre
raízes recentes de
amor  e medo

em aflição
celebro o vento
que não escuto
a voz ardente
na chaga do sol
se cala

o meu corpo dorme
na terra
ama-se o ouro sangue
que vira larva

em um voo
abro meu canto
a trajetória do
amor é ampla
nascem flores sobre
o sono e lamento.

HILDA HELENA DIAS
Arte: Arô Ribeiro com performance para fotografia de René Misumi.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O grito

o grito

ouço o grito escuro
dos homens num
rio de extensas
águas desiguais
passando nas
manhãs  de medo e
pobreza

em mim
um olhar aguado
escondido das gentes

o sangue de ouro
compra o tempo
nos olhos do espírito
a fome de estar
vivo
querendo a vida
de volta

mortos acordados
na lucidez
se juntam
na rudeza aparência do
amor dilacerado
trabalham riquezas

loucos
com garras de ferro
desaparecem no
roteiro ensolarado
com uma faca finíssima
grito levando
na noite
num passeio esquecido
bombas limpas
num regime rígido

morrendo descobre-se
a si mesmo
se faz abstração
no cruzar da
tarde

sem unanimidade
como ferozes
convive-se no todo
com tudo
o rio correndo
fascina os amantes
que trabalham o
sangue.


Hilda Helena Dias
Fotografia: Arô Ribeiro

domingo, 24 de janeiro de 2016

O mover

O mover

antes que
acabe o desejo
prova-se do
gosto milagre
assisto o
campo florido
armo-me no
silêncio
nos mares de
gente de
palavras negras

é assombro
ser  no círculo
do outro
o centro do
amor se movendo

na explosão do
sangue
a extensidade.

Hilda Helena Dias 

Fotografia:Arô Ribeiro, com performance de René Misumi.

transmutação

transmutação

os dentes do sol
mastigam o
escuro momento
dentro de mim
a sombra do
tempo
rói a vida

o corpo de terra
de dentro para
fora
pensa o mundo
vejo os girassóis
na tarde
se fechando

a morte evidencia
o caos
iludo-me
ficando feliz
por ter um
sono bom

no instante do
nada
o corpo fervendo
enlouquece
atraído pelo amor

articulo meu eu
crio um império
evoluo
flui-se em outra
dimensão.

Hilda Helena Dias

a guerrilha

a guerrilha

afasto-me do
limite de
nada ser
expondo
minha carne e
ossos

desvio de julgamentos
que me impedem
do meu corpo fraco
ter um diálogo com a
irracional vida

vivo fragmentada
me devoro nesta luta
isto tanto faz
desdobro-me
gozo na minha fraqueza
luta-se a vida toda.


Hilda Helena Dias

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

o monstro

o monstro

tensa
mergulho no
gozo momento
sorvo as horas
embriagada pelo
sangue
em minha veia

nada digo
não quero dizer
penso de dentro
entre fumaças
respiro
todo meu
eu

escancara pelo
corpo a
consciência
vejo o antes e
depois
iludo-me
de nada ser e
nem continuar
a ser nada
o ser em mim
luta com
a monstruosidade de
nada ser

de repente o
silêncio
minha língua
viva e monstruosa
de ser o horror
me fere

serei obstruído
do real
doente
não digo
que nada significo

recuso-me a falar
mergulho e falo de
dentro das dobras
que sou feita de
carne

contra todos
os contras
enlouqueço
supero-me
com a cabeça sangrando
não escapo de
mim
enfrento-me
sou um arsenal
em um corpo
disposto.

Hilda Helena Dias

Vicent Van Gogh

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

coração dilatado

coração dilatado

nos dias longos de
noites curtas
temo no perpétuo
instante ser
brevidade do
infinito amor

apagar o existir
da matéria no
sangue
desordena

a ideia de existir
no outro
é ser céu de mim

o meu passado e
futuro o tempo
engole
degusta-se o
que em vermelho
a vida anuncia.

Hilda Helena Dias


nossas memórias

nossas memórias

somos filetes de gelo
em águas correntes
matéria íntima
de nós no
tempo morrendo

meu corpo animal
medido pelo amor
tatua na memória
confidências e
silêncios de
nossas estações

nos dias dilatados
nossas caras
no rosto um do outro

deliberamos amar
em pedaços nos
cortamos

desço as escadas
da alma
saindo da sobreexistência
encontraremos a
entrada para
nossas partidas.

Hilda Helena Dias
Arte visual: Alice Wellinger

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

morte pequena

morte pequena
canto-te
oh morte!
numa planície 
oca
sou poeira insignificante
perco-me na sua
hora
mas tu
perdes o meu
vazio
as horas das
minhas buscas
vestida de
sol
paredes d'água
espelhadas do
outro
ultrapassei
imagino-te
crescendo nova
a cada dia
até o dia
que por ti
serei pedida como
amante
me vigio
te esperando
nos instantes
cegos
reconheço-te
virá quebrando
as porcelanas
prostituta desprezível
te coroo rainha
me colo e
recebo-te ao
meu deitar
nas ilusões e
sonhos te
abraço
levarás meus
órgãos dos sentidos
tudo que desfrutei
coisas insignificantes
mas minhas
o nada tudo é
e em tudo
está
persigo-te sua
fingida
tiro sua
máscara
amando-te
como predadora
devoro-te
como se tu
coubesse toda
dentro dos meus
ossos
recrio-te
em ideias infinitas
a semelhança
da vida
eterno nada é
teu nome
rio de você
sem cara
na intimidade
te penso
fascinada por
mim
se alimentando
da minha
carne
sou pesada
de vida
terás que
dobrar-te
como uma
égua negra
pois não sei
montá-la
provo-te
nas perdas
de minha memória
de pó
viva te persigo
morrerás pequena
dentro de mim.
Concert For a White Lily
SOUND Performance
Action: Ana Montenegro
Conception: Ana Montenegro e Edgar Ulisses Filho
Musical instrument: py tagorean monochord
VERBO 2006, Vermelho Galery, São Paulo, SP

nichos

nichos
na insensatez
do sonho
sou apossada
sonâmbula
ao som cruel
o corpo em
batalha
corroem as
cordas do sentimento
a alma desfeita
embriaga a lucidez
na convivência
de todos os animais
ferozes
o excesso de loucura
tecida em redes
na armadilha
sem cor
o nicho de
ser de
outro
é dar vida a
alma
dedos estancados
e estendidos
buscam a
carne viva
o amor é devorado
no toque furtado
dos sentimentos
sobre o peito
passeia as muralhas
do tempo se
desfazendo
temo a minha
caminhada
colada noutra
vida
não sei como
caberemos
noutro mundo
sentir é divino
nascer no limite
mínimo
atado e tecido
na canção da
leveza
me faz ver os
espinhos coloridos
carne breve
de matéria
nos sonhos mortos
dormirei pela
eternidade
acordada, amo
ter alguém ao
lado
é ser sonho de
mim mesma
no espelho do
outro
o sigilo extremo
sem limites
se faz sombra
no retrato
dos mortos
dorme o eterno
suspenso sobre
ideias e inventos
durmo pensando no
meu corpo vivo
armado de listras de
delícias
na leveza do
corpo
ser amado
é estar no
Paraíso
agora é tempo
de luz
vivo, o
sentimento toca
em mosaicos
a vida sendo
água corrente
nos faz areia encharcada
sorvendo do
rio que nos
estende e diminui
o coração aberto
fechado na
dimensão de Terra
sonha de volta
à vida
nas sombras e
ilusões seremos
tomados como
amantes proibidos
sonho-me tua
extensa
vermelha e viva
ouço dos nichos
uma voz que
está comigo
no luto
minha casa
no seu coração
escondido na eternidade
a minha alma
não terá sobrenome.
Visual Art: Alice Wellinger